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Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

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Decidi criar este blog para tentar organizar alguns postings sobre assuntos que eu tenho compartilhado na internet, seja por meio de noticias coletadas e arquivadas, mas que todos deveriam saber, seja sobre assuntos técnicos que vejo e participo na comunidade do orkut Engenharia de petróleo, do professor da PUC-RJ Luis Rocha (quem eu não conheço pessoalmente).

É de caráter experimental, mas espero que seja bem aceito e conte com a participação de pessoas interessadas em adicionar.
Saudações rubro-negras a todos!!!
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Luciano da Costa Elias
Eng. Quimico
EQ/UFRJ 92/1
CBS 301/91

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terça-feira, 17 de março de 2009

A queda do conceito de "Criar valor para o acionista"

Uma revolução no mundo corporativo

Francesco Guerrero, Financial Times (VALOR ECONOMICO) - 17/03/2009 

Em outros tempos, a proposta do atendente no balcão de embarque teria sido aceita com entusiasmo. Em meio à pior retração econômica desde a Grande Depressão, porém, políticos populistas e uma imprensa agressiva que clama por uma sanção severa contra os "excessos" de Wall Street, o veterano banqueiro parou para pensar quando ouviu essas geralmente bem-vindas palavras de empresa aérea: "Senhor, sua categoria foi elevada para primeira classe. Queira me acompanhar".

Quando finalmente respondeu: "Estou bem na classe econômica, obrigado", ele renunciou ao melhor assento e abriu outra fissura na blindagem de crenças e práticas que a América corporativa construiu e disseminou pelo mundo por décadas.

Outrora saudados como exemplos de um sonho americano que recompensava sucesso com polpudos contracheques, benefícios generosos e admiração popular, os executivos e suas companhias foram apanhados no centro de uma tempestade que revolucionará o mundo dos negócios. O congelamento profundo dos mercados de capitais, a implosão de grupos financeiros e o resultante crescimento da ascendência dos governos ante o setor privado colocaram em xeque parte dos alicerces do capitalismo anglo-saxão.

Dogmas de longa data da crença empresarial - a busca de valor para o acionista, o uso de opções de ações para motivar empregados e um leve toque regulatório, combinado com fiscalização da direção pelo conselho de administração - estão sendo responsabilizados pela turbulência e parecem ser candidatos prováveis a uma reformulação.

"Estamos em águas inexploradas", diz Jack Welch, o ex-CEO da General Electric, que personificou uma época em que a interação desimpedida das forças de mercado, executivos-chefes prepotentes e enfoque instantâneo nos aumentos trimestrais das receitas reinavam absolutas.

Se, como já ficou dolorosamente claro, o sistema de valores e os princípios operacionais que formaram a psique corporativa pelo menos desde a Guerra Fria foram considerados deficientes, o que deverá vir em seu lugar?

Líderes do mundo dos negócios são por instinto um tipo de gente "meio copo cheio", mas, desta vez, poucos acreditam que o futuro das suas empresas reside nas suas próprias mãos. A atuação do setor financeiro, que causou os choques que sacudiram a economia mundial, teve um grande efeito colateral: o debate em torno da governança empresarial não está mais confinado à sala de reuniões do conselho de administração. Acionistas, que vão desde sindicatos a investidores engajados e o próprio governo, estão reivindicando o direito de fixar os limites de uma nova ordem corporativa. Nas palavras de um líder sindical: "O tempo das ditaduras corporativas acabou. Chegou a nossa vez".

Essas pressões, combinadas a uma reavaliação interna das prioridades das empresas precipitada pela crise, estão começando a demolir um dos pilares do edifício corporativo anterior: o culto do valor para o acionista.

Desde que Welch tornou o conceito famoso num discurso proferido no Hotel Pierre de Nova York, em 1981, a meta de curto prazo de recompensar acionistas através da elevação de lucros e dividendos a cada três meses tornou-se um mantra para empresas por todo o mundo. Com a disparada nos preços das ações da GE e de outras empresas focalizadas nos acionistas, executivos de todo o mundo incorporaram a crença que Alfred Rappaport explicou em seu livro de 1986, "Creating Shareholder Value" (gerando valor para os acionistas): "O derradeiro teste da estratégia corporativa, a única medida confiável, é saber se ela cria valor econômico para os acionistas".

Os gestores de fundos estimularam essa atitude, à medida que a pressão gerada por suas próprias avaliações trimestrais os tornava dependentes das melhoras periódicas nas receitas e nas cotações dos papéis, prometidos pelos profetas do valor para os acionistas.

Hoje, esse enfoque no imediatismo é visto como a causa essencial da difícil situação econômica mundial. "A maximização imediata do valor para o acionista, por si, sempre foi excessivamente de curto prazo em natureza", diz Jeffrey Sonnenfeld, da Escola de Administração Yale. "Ela criou uma ilusão efêmera de geração de valor, ao ressaltar metas imediatas à custa de estratégias de longo prazo". Até Welch argumenta que concentrar-se exclusivamente nos aumentos do lucro trimestral "foi a ideia mais tola do mundo". "O valor para o acionista é um resultado, não uma estratégia", ele diz. "As suas principais clientelas são os seus empregados, seus clientes e os seus produtos."

A exemplo de muitas outras personagens do mundo dos negócios, Welch quer que a tarefa de mapear um novo caminho, distante do conceito de curto prazo, recaia sobre os diretores e executivos. Sindicatos, órgãos reguladores e autoridades do governo argumentam, porém, que uma campanha por mudança, liderada pela mesma elite empresarial que ajudou a causar a turbulência, não conseguirá remover as contradições que minaram o regime anterior. "Não acreditamos que as empresas devam ser administradas no interesse de investidores de curto prazo e de executivos que estão firmemente decididos a enriquecer de repente, independente dos riscos, e a deixar os contribuintes e os reais detentores de longo prazo juntarem os cacos", disse Damon Silvers na AFL-CIO, a confederação dos sindicatos de trabalhadores dos EUA.

Sindicatos e investidores "socialmente responsáveis" argumentam que o enfoque em lucros de curto prazo deveria ser trocado, não só por pensamento estratégico de longo prazo, mas também pela atenção a temas como o ambiente e as necessidades dos clientes e fornecedores. O movimento de responsabilidade social corporativa, em alta antes da crise, provavelmente receberá um ímpeto renovado pelo reconhecimento do investidor, de que a estreita busca do lucro pelas empresas nem sempre foi a melhor estratégia.

Muitos líderes empresariais desaprovam o que consideram ser uma intromissão crescente do Estado e de outros grupos de interesses na sua capacidade de administrar a companhia. "Se existe um perigo na situação atual, é o de não sabermos como sair desta pequena aventura em socialismo, para que o setor privado possa fazer o que ela sabe melhor - ou seja, inovar, crescer e criar emprego", diz John Castellani, presidente da Business Roundtable, o grupo lobista para algumas das maiores companhias dos Estados Unidos.

A chegada do presidente Barack Obama à Casa Branca na esteira de uma maioria democrática no Congresso, aliada a um aumento da antipatia do público a plutocratas, já resultou em grandes vitórias para sindicatos e outras organizações militantes. Reformas que investidores ativistas haviam exigido por anos, sem grande sucesso, como uma votação (embora não obrigatória) sobre remuneração dos executivos, já foram aprovadas pelo Congresso. Outras, como o "acesso por procuração" - o direito de acionistas nomearem candidatos para o conselho de administração e rejeitar diretores com desempenho insatisfatório - estão a caminho, ao passo que os limites para as gratificações, impostos aos bancos que tomaram recursos do governo, causaram um frio na espinha de muitos executivos.

Essas iniciativas proporcionam mais munição aos ativistas na primeira grande batalha para remodelar as regras do jogo corporativo: a remuneração de executivos. O fracasso do modelo de alto risco e alta recompensa de Wall Street deverá causar mudança em duas frentes importantes: remuneração da alta direção e o uso de opções de ações.

Após anos de salários em alta, os lideres empresariais nos Estados Unidos podem nutrir esperanças de colher recompensas relativamente magras nos próximos anos. À medida que a retração econômica se movia de Wall Street para a sociedade em geral, até empresas que não haviam recebido ajuda federal, como GE, FedEx e Motorola, se uniram às que recebem ajuda vital do governo, na drástica redução da remuneração dos executivos do alto escalão.

Muitos também estão reexaminando a disparidade de remuneração entre executivos e demais empregados. Na América, a discrepância entre a remuneração dos situados no topo da árvore corporativa e os bem abaixo no tronco tem aumentado regularmente por décadas, atingindo estimadas 275 vezes a média em 2007 e contribuindo para a crescente desigualdade de riqueza no país.

Uma parcela substancial da culpa pela alta vertiginosa ocorrida na remuneração dos executivos e pela obsessão dos administradores com metas de curto prazo está sendo atribuída às opções de ações e outras formas de incentivo à remuneração.

Até agora saudada com uma ferramenta para alinhar a remuneração dos executivos com os ganhos dos acionistas, as opções têm ficado cada vez mais desacreditadas como forma de recompensar executivos por altas no mercado acionário que nada têm a ver com eles. No setor bancário, concessões de opções e ações de fim de ano tinham a desvantagem adicional de remunerar o corpo de funcionários bem antes que a empresa ou seus acionistas pudessem constatar se as suas apostas haviam vingado.

Vários bancos anunciaram planos para retomar gradativamente as gratificações futuras de empregados cujos negócios deram errado nos anos passados. Mas a consequência daquilo que um executivo chamou de "época em que nos gratificávamos com dinheiro alheio" será sentida muito além do sistema financeiro. Parece certo que órgãos reguladores e investidores reforçarão a conexão entre remuneração e desempenho de longo prazo, por meio da instituição de medidas como uma proibição a vendas de ações e opções até a aposentadoria, ou mesmo um limite direto à remuneração.

Fred Smith, fundador e executivo-chefe da FedEx, falou por muitos líderes empresariais em dezembro, quando predisse: "Parte dos fantásticos ganhos exagerados que representaram uma afronta para as pessoas serão cada vez mais improváveis. No nível do conselho de administração as coisas não serão consideradas como sendo sem custo para os acionistas".

Os próprios conselhos de administração estarão na linha de fogo. As perdas sofridas pelos grupos financeiros expuseram a crença de que os diretores eram os versados guardiões dos interesses dos acionistas como sendo uma falácia - que não passará despercebida de investidores furiosos e advogados ávidos por honorários. Como resultado, a composição dos conselhos de administração deverá mudar dramaticamente.

Russell Reynolds, o decano dos caçadores de talento americanos, diz que os diretores precisarão ser mais versados e mais altruístas. "Idos são os dias em que diretores jogavam um bom jogo de golfe, mas não conheciam a relação risco-compensação do negócio", ele diz. "Ainda assim, o ambiente atual exige pessoas que possam devotar tempo para o negócio em troca de remuneração relativamente baixa. É quase um ato de caridade"

Investidores como Bob Pozen, que dirige a MFS Investment Management, acredita que os conselhos de administração das empresas registradas em bolsa deveriam se assemelhar mais às suas rivais pertencentes a empresas de "private equity": menores, mais ágeis e mais competentes. "Os diretores naqueles conselhos têm a experiência, o tempo e o incentivo para entender plenamente os temas da empresa", diz.

Jeffrey Immelt, que presidiu uma queda de aproximadamente 75% no preço das ações da GE desde que sucedeu a Welch em 2001, e que ontem testemunhou a retirada da sua classificação de crédito "AAA" pela Standard & Poor´s, lamentou-se, recentemente: "Qualquer um podia dirigir um negócio na década de 1990. Um cachorro podia tocar uma empresa".

Infelizmente para Immelt e seus contemporâneos, estes anos não são os anos 1990 e tampouco se parecem com os anos seguintes. À medida que estruturas de negócios que se acreditava serem indestrutíveis se desfazem em meio ao colapso geral, o setor empresarial precisará renunciar a muito mais do que seus assentos de primeira classe. (Tradução de Robert Bánvölgyi)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Líderes pra que?

Professor da FGV diz que culto à liderança é modismo e que chefes têm pouca influência sobre o desempenho

Por Gabriel Penna (Exame)

(Hermano Thiry-Cherques, da FGV-RJ: "Para lidar com modismos, gerentes devem ser mais céticos e desenvolver os fundamentos")

Quem disse que as empresas só funcionam com líderes inspiradores ou carismáticos? Segundo o pesquisador e escritor Hermano Roberto Thiry-Cherques, de 58 anos, gestores e companhias investem em modelos de liderança sem ter provas de sua eficácia. "Existem e sempre existiram organizações que obtêm êxito sendo dirigidas formalmente, com hierarquias convencionais", diz. Professor titular na Escola de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro, Hermano argumenta que não há evidências empíricas de que a presença do líder melhore os resultados do negócio.

O culto à liderança, diz ele, é um modismo. Mestre em filosofia e doutor em engenharia, Hermano coordena dois núcleos de estudos na FGV. São eles, o Laboratório de Produtividade do Trabalho e o Núcleo de Ética nas Organizações. Em suas pesquisas, já ouviu cerca de 20 000 executivos. Crítico implacável dos modismos gerenciais, o professor diz que os gerentes têm de investir nos fundamentos da sua atividade. 

O senhor diz que não há dados que demonstrem que as empresas precisam de grandes líderes para sobreviver. Por que diz isso?
Porque existem e sempre existiram organizações que obtiveram êxito sendo dirigidas formalmente, com hierarquias convencionais, por gente séria, mas sem carisma. É possível que haja dirigentes e líderes que irradiem exemplos e inspirem decisões, mas não há evidências de que modifiquem formas de comportamento ou de que transfiram valores. O culto a pessoas, bem como a sua demonização, depende de quem interpreta, e não dos atos e pensamentos do líder em questão.

O discurso e os investimentos das empresas em prol do desenvolvimento de líderes são um modismo?
É claro que é possível dar condições às pessoas com perfis psicológicos compatíveis com o "espírito de liderança" de realizarem seu potencial. Mas ninguém pode afirmar como se formam líderes. Muito menos sustentar que é possível alterar personalidades em uma direção determinada. É uma ingenuidade acreditar que os perfis das pessoas podem ser criados ou moldados mediante adestramento, observância de máximas ou declamação de mantras.

Em torno desse culto à liderança orbitam altos executivos, autores, palestrantes, escolas. Há muito charlatanismo nessa onda?
Sim, como em todas as áreas da esfera do gerenciamento, onde circula muito dinheiro. O fato é que nas pesquisas do Laboratório de Produtividade não encontramos evidências empíricas de que os líderes infundam condutas. Como ocorre com políticos nas eleições ao tentar transferir votos, os efeitos da liderança demonstram ser fortuitos e ocasionais.

Cite exemplos de outros modismos gerenciais da atualidade.
Existem vários. Para não comprar briga com todo mundo ao mesmo tempo, citarei apenas um: o da responsabilidade social. Isso surgiu da incapacidade do Estado de cumprir com suas atribuições. As empresas fazem para blindar sua imagem e, em geral, deixam o trabalho na mão do marketing.

E a sustentabilidade, que hoje é repetida como se, de uma hora para outra, não fosse possível tocar um negócio sem ela?
Na forma como está sendo tratada, sem conhecimento científico, sem fundamentação específica, é, sim, um modismo. Infelizmente, porque o assunto é de extrema relevância e existem acadêmicos de alto nível trabalhando no tema.

Como um gerente deve lidar com tantos modismos?
O importante é estar informado sobre as reais necessidades da empresa e as lacunas na própria formação. Deve-se buscar dominar os fundamentos — como métodos quantitativos, modelagem de projetos — antes do que as técnicas específicas. É como no vôlei: recepção, saque, bloqueio e ataque primeiro, depois as estratégias e táticas de jogo.

Quais são os riscos para profissionais que questionam essas crenças?
Declarar que o rei está nu é, e sempre foi, uma atitude de alto risco. Conheço gerentes que perderam o emprego porque se recusaram a aplicar técnicas da moda, que evidentemente não funcionariam na circunstância em que eram propostas. Técnicas como a reengenharia, por exemplo, que afinal acabaram saindo de moda rapidamente. A atitude mais conveniente é a do ceticismo pirrônico aliado ao silêncio obsequioso.

Quais seriam os modelos gerenciais alternativos?
Existem muitos modelos de gestão de pessoas. Não há evidência empírica, por exemplo, de que o trabalho sem líderes, tanto formalizado, sistemático, individualizado quanto em grupos autogeridos, é menos produtivo. Pelo contrário, a individualização do trabalho é tendência majoritária nas culturas organizacionais de alto desempenho do século 21. Seja como for, quando se fala em desempenho no trabalho, os fatores decisivos são a arregimentação de profissionais, a instrução assistida, a integração informacional e o controle dos resultados em tempo real.

Há um executivo que o senhor admire pela visão gerencial?
O Brasil é rico em executivos bem formados e com talentos excepcionais. Chegamos a exportar gente para grandes corporações internacionais. Seria injusto apontar um. O que posso afirmar é que os executivos que admiro são os que não se deixam levar, os desassombrados. O mundo contemporâneo, com a crise econômica internacional, se parece com um trem fantasma: a cada curva, um susto. Por isso, o que conta hoje é a serenidade, a cabeça fria. Afinal, as ondas passam, as organizações ficam.
 

Excelente Artigo de Stephen Kanitz


Plano Emergencial de Combate à Recessão Brasileira

Diagnóstico. A recessão brasileira foi induzida pelo pessimismo e alarmismo, propagado incessantemente em outubro de 2008, que contaminou a população brasileira. Jornalistas e alguns economistas disseminaram pânico, ignorantes que o Brasil estava em aceleração de 6,8%. As poucas tentativas de mostrar que o Brasil estava relativamente protegido fracassaram. Passamos da Fase 3 diretamente para a Fase 5.


O medo e o pânico já se disseminaram. Ao ponto que 29% dos trabalhadores entrevistados pela Folha de São Paulo acreditarem que serão despedidos em 2009. Curiosamente semelhante à taxa que de fato foi despedida em 1929, data repetida centenas de vezes em outubro. Quem acha que será despedido deixa de comprar carros imediatamente.

Isto significa que 29% da população não irão comprar a crédito em 2009, mesmo que o crédito volte a ser disponibilizado.  De nada adianta reduzir os juros como muitos economistas propuseram. Mesmo a custo zero, demissionários não compram a crédito. O Banco Central foi correto em manter os juros.

Este dado publicado pela Folha foi a gota d'água para os empresários iniciarem uma onda de demissões. Os 71% de trabalhadores confiantes de que não perderiam seus empregos, a esta altura já devem estar contaminados. De nada adianta reduzir o IOF, o IPI dos carros, reduzir o imposto de renda de pessoas físicas - como propôs Guido Mantega, porque demissionários em potencial não irão comprar a crédito. Estas soluções parecem ter saído de livros textos, e não da observação da gravidade da pesquisa da Datafolha.

Ou revertemos estas expectativas, e não será fácil revertê-las, ou teremos uma crise muito maior do que a americana, que por sinal já mostra sinais de reversão. Vide meu artigo no site "Seeking Alpha". Nos Estados Unidos, os pedidos para novas hipotecas dobraram em novembro.

Pacto Social Pelo Emprego

A grande meta é reverter estas expectativas de demissão disseminadas. Como?

Empresas que se comprometerem junto ao Ministério do Trabalho, a não demitir nos próximos dois anos (ou substituir as demissões por novos empregos) terão os seguintes benefícios fiscais:

  1. Isenção de Imposto de Renda sobre Lucros Reinvestidos.

Taxar lucros reinvestidos sempre foi um erro da política tributária brasileira. Lucro distribuído sim, mas tributar lucro reinvestido é reduzir ICMS e IPI futuro, um tiro no pé. É tirar liquidez das empresas bem sucedidas que poderiam continuar crescendo se não fosse a taxação do lucro real, que dependendo da inflação chega a 40 a 80%. Novamente a velha questão do Nominal x Real.

Taxar lucro reinvestido especialmente agora que as empresas não têm crédito de bancos  nem acesso à Bolsa de Valores, é um absurdo monumental. Parece que ninguém no governo jamais trabalhou numa empresa. Lucro reinvestido será a única fonte de financiamento de crescimento em 2009. Como impacto negativo para o governo ele poderá ser zero. A tendência é todas as empresas terem prejuízo em 2009 e a arrecadação para o governo neste item, em 2008, já será bastante reduzida.

O Governo está com recordes de arrecadação e uma renúncia fiscal temporária é o mínimo que o governo pode fazer.  

  1. Isenção de Pagamento dos 8% do FGTS.

Pagar um seguro desemprego para o futuro, na eminência de desemprego é uma contradição. Pelo contrário, esta redução aliviaria o FGTS de pagamentos dos desempregados. Trabalhadores receberiam "na veia" 8% de aumento no salário, incentivando o consumo.

  1. Isenção do Imposto de Renda de Aplicações Financeiras na Pessoa Jurídica.

Nosso código tributário taxa aplicações financeiras na pessoa jurídica a 32%, e na pessoa física 20%. Este procedimento quase que obriga a descapitalização da empresa, onde os donos distribuem as reservas da empresa para a pessoa física para aplicar numa tributação mais reduzida. E aí, relutam a capitalizar a empresa numa crise, ou por pressão da família.

Por isto, nossas empresas estão demitindo, por não terem reservas para sustentar uma folha de pagamento, apesar de que demitir é a última coisa que a empresa familiar, por paternalismo, deseja fazer. Pior, demissão significa dizer ao funcionário : "Use você suas reservas para sobreviver, depois da crise o contratamos." Mas quem impossibilitou o acúmulo de reservas na empresa foi nosso próprio governo.

Além do mais, taxar em 64% o juro real de aplicações financeiras, se considerarmos a real tributação do juro real, é desestimular qualquer tentativa de ser prudente e poupar para os anos de vacas magras. Deveria ser uma medida definitiva. Novamente a questão Nominal x Real, será que ninguém percebe a importância desta questão?

  1. Dedutibilidade dos Juros na Compra de Carros no Imposto de Renda da Pessoa Física.

Para uma indústria taxada em quase 55% da vendas, o mínimo que o governo brasileiro poderia fazer para a indústria automobilística é reduzir esta taxação temporariamente, mas de forma inteligente. Só quem de fato comprar a prazo terá redução do imposto de renda e não toda a classe média que provavelmente irá economizar. Este incentivo somente impacta as receitas do governo em 2010, com ação imediata hoje. Redução do IOF impacta imediatamente as receitas e compromete os investimentos para o crescimento. Um absurdo macro econômico.

A proposta de redução da alíquota do imposto de renda para as pessoas físicas não garante em hipótese alguma uma volta às compras, porque 100% das pessoas temem que possam ser despedidas.  

Esta medida é fácil, mas perigosa. Nos Estados Unidos, foi a origem de toda esta crise, a dedutibilidade dos juros na compra da casa própria, que incentiva o endividamento de toda família americana. Foi uma política neo-keynesiana americana, pró pleno emprego, mas que tornou o americano o povo mais endividado do mundo, com segundas e terceiras hipotecas sobre a mesma casa. Americano não salda dívida imobiliária, a renova para usufruir o benefício fiscal.

O Canadá, que não tem esta política fiscal keynesiana, não teve nenhum problema financeiro, apesar de ser praticamente uma cópia da economia americana, com esta única diferença.

É só resistir à pressão dos construtores para estender este beneficio ao setor imobiliário.

  1. Isenção do Imposto de Renda nos Ganhos de Capital na Bolsa de Valores.

Taxamos os ganhos de capital em torno de 30% dependendo da inflação, razão pela qual a Bolsa despenca em crises. Quem vende não tem o equivalente para recomprar, mesmo se arrepender de ter sido contaminado pelo pânico.

Além do mais, esta taxação aumenta o custo de capital das empresas, já caríssimo no Brasil, obrigando-as a procurar capitais no exterior, impactando o câmbio e criando volatilidade e necessidades de hedge, que acabaram prejudicando empresas como a Aracruz e a Sadia. Pior, acaba reduzindo IPI e ICMS no futuro, outro tiro no pé na nossa tributação.

Parece ser um favorecimento aos "capitalistas" mas na realidade imposto sempre deveria ser sobre o consumo dos "capitalistas" e não quando eles simplesmente reinvestem o lucro de suas aplicações em prol de empresas que empregam e pagam impostos.

Pior, economistas de governos passados lutaram e conseguiram isenção para capitalistas estrangeiros, que irão consumir nos seus países, e mantém a taxação para a classe média poupadora brasileira, que paga duas vezes. Por isto, 70% da Bolsa são de estrangeiros, gerando estas flutuações de câmbio e Bolsa. 

  1. Permitir ao trabalhador brasileiro receber entre 15 a 20% dos 28% de contribuições previdenciárias, pelo número de meses que quiser, (até 24 meses) em troca do postergamento de sua aposentadoria, pelos mesmos meses correspondentes.

Não faz sentido poupar para uma aposentadoria daqui a 30 anos quando se está numa enorme crise momentânea. Poupar 28% do salário no meio de uma recessão é uma irresponsabilidade imposta pelo Estado, por mais sensata que seja a idéia de poupar para a velhice. Como este assunto é polêmico quanto ao que de fato os 28% financia, coloquei 15 a 20% como aproximação.

Esta medida terá um impacto maior nas finanças do governo. Pelo menos o governo poderia começar a contribuir com os 8% que nunca contribuiu para a previdência, agora que ela tem excesso de arrecadação e que levou nosso sistema previdenciário à bancarrota.

Poderíamos ser seletivos favorecendo somente os Estados mais pobres, modificando os 28% para um valor menor. Há inúmeras possibilidades, dependendo de como a crise se agrava e a confiança da população aumenta com relação a não ser despedido.

É o item de maior espaço de manobra devido ao elevado valor. Só que se o valor devolvido for ínfimo, o trabalhador não irá fazer a troca. Embora mais vale um real na mão do que um real daqui a vinte anos.

Pouca chance de aceitação.

Considerações Finais

Bancos não emprestam para quem será despedido. O sucesso do crédito consignado para aposentados tem por base o fato que aposentado tem renda garantida pelo governo. É esta garantia que queremos replicar para o setor produtivo.

As empresas que assinarem este pacto terão vantagens fiscais, economizarão custos de demissão que no Brasil são elevados, e permitirão seus funcionários a obter crédito a juros mais baratos, sem risco.

As empresas que se comprometerem a não despedir assinariam protocolo na internet no Ministério do Trabalho, cancelável a qualquer momento se a recessão se agravar.

As outras medidas que sugeri independe de acordo empresarial. 

De 40 empresários com os quais já discuti esta proposta, devo alertar que nenhum se sentiu confortável, a não ser os 25% de empresas que irão crescer nesta crise. Estes não precisam de incentivo algum.

Conto com pressão de Ongs , do Instituto Ethos, e de Empresas Socialmente Responsáveis, porque não há nada mais responsável do que ficar do lado de seus funcionários numa recessão.

A decisão do Citi de despedir 5% de seus funcionários, foi um recado aos outros 95% a prepararem seus currículos, manterem as suas boas idéias para o próximo empregador, e não fazerem nada de novo. Numa reunião, deixe o chefe falar e concorde com ele. O executivo do Citi afundou o melhor banco do mundo.

O compromisso teria de ser retroativo, tipo 1º de dezembro de 2008, para que as empresas não despeçam todos antes de assinar o Pacto Social pelo Emprego.

Isto obrigaria algumas empresas a recontratar os despedidos em dezembro, o que muitos não aceitarão, porque despedir no Brasil custa 40%. Alguma forma jurídica de cancelamento e devolução do FGTS e pagamentos precisaria ser rapidamente encontrada para estes casos.

Dada a resistência, acredito que mais uma medida precisará ser oferecida, que já adianto será considerada impopular entre os sindicatos - a permissão de não repor vagas de saídas voluntárias. Funcionário que sair da empresa para trabalhar em outra, ou seja, não perdendo o emprego, não precisa ser reposto. Isto pode significar uma queda de 2 a 4% na força de trabalho de uma empresa que assinou o Pacto, mas do nosso ponto de vista se manteve no espírito do acordo.

Muitas empresas fizeram investimentos, substituindo tecnologia por empregos, e uma redução de trabalhadores já estava nos planos. A única diferença é que usaremos a natural rotação de mão de obra, que nos bons tempos chega até a 10% no ano.

Eu acredito que diante das propostas acadêmicas feitas até este momento, estas sugestões têm maiores chances de dar certo e merecem reflexão e uma avaliação do IPEA, da FIESP, da UNICAMP, da FIPE, da FGV, do IBMEC, do IEDE e da Associação Comercial; instituições que até agora não fizeram propostas no sentido de conter o medo do desemprego instalado neste país.

Eu já cansei de correr atrás, sugerir boas idéias, sair a campo disseminando-as, enfrentando aqueles com interesses contrários, sugerindo os detalhes operacionais como se eu fosse o único interessado. Fico por aqui, o resto é com vocês. Boa sorte!

Stephen Kanitz
stephen@kanitz.com.br